Wednesday, August 05, 2009

A arte de ouvir

Há muito tempo não escutava sua voz. Achei que ela fosse ter um efeito absurdo e que, subitamente, toda aquela idolatria descontrolada da adolescência (e que só se é capaz de sentir na adolescência) voltaria à tona. Para meu espanto, mal reconheci o timbre que, monotonamente, recontava uma infância estilhaçada já nos primeiros momentos de “Kurt Cobain – About a Son”, enquanto a bucólica cidade de Aberdeen passava pelos meus olhos.

Documentário baseado única e exclusivamente nos monólogos que o vocalista do Nirvana travava em entrevista a Michael Azerrad, o filme tem esse poder de choque e distanciamento que desgosta os fãs mais afoitos, aproxima os indiferentes mas, acima de tudo, dá a chance ao morto Cobain de contar sua própria história. Com todas aquelas mentiras, versões e pequenos esquecimentos que acometem a todos os humanos, quando falamos de nós mesmos.

A falta de imagens do próprio Kurt e de músicas da banda é o primeiro passo que permite esse distanciamento da idolatria. O espectador se depara com imagens bucólicas, às vezes pseudo-simbólicas, que pouco parecem ter a ver com a estética explorada pela banda em álbuns, vídeos e nas próprias matérias relacionadas ao grupo.
E a trilha sonora, se algumas vezes esbarra no óbvio (como em “The Man Who Sold the World”, cantada pelo Bowie, da qual todo mundo lembra a regravação feita pelo Nirvana), em outras horas, traz os nem tão manjados (no caso) Queen e Credence Clearwater Revival para ambientar passagens das lembranças de Cobain.

E foi quase que com choque que ouvi os trechos da entrevista, em que os timbres da voz de Kurt ora se aproximam do que habita as minhas lembranças, ora voam longe pelo nível de droga ou de amargor existente no sangue do entrevistado. É impossível não se interessar por coisas que só ele poderia admitir (como quando assume que consumia 400 dólares de droga por dia) e também pelas contradições quando o cara discorre sobre fama, dinheiro, drogas e a própria banda.

No entanto, mais que filme, documentário ou reportagem, “About a Son” é um belo exercício da arte de ouvir. Mesmo que não seja exatamente o que esperávamos escutar.

Monday, June 22, 2009

Sobre guitarras e vacas


Em uma fazenda, Jack White constrói uma guitarra usando madeira, cordas e uma garrafa de Coca-Cola enquanto eu assisto a tudo perplexa. A cena que abre o trailer de “It Might Get Loud” explica a motivação do documentário: mais do que a paixão pela guitarra, fala-se aqui da paixão pelo som que ela emite. Daí a acertada escolha de reunir Jimmy Page, The Edge e Jack White, cada um representando uma geração e seus timbres tão característicos.

O filme, que estréia dia 14 de agosto, foi dirigido por Davis Gugenheim (Uma Verdade Inconveniente) e marcou presença nas seleções oficiais dos festivais de Sundance, Berlim e Toronto. Eu já tou babando aqui, e você?
Agradecendo à grande amiga Paula pela dica!!! Thanks!

Tuesday, June 16, 2009

Tou lá


Ocupadíííssima pirando com o novo álbum da Dave Matthews Band. Resenha e link no Depredando.
Como vocês sabem, eu sou bem suspeita, né?

Friday, June 05, 2009

6 álbuns para viver 2009


6. Metric – Fantasies
“Help, I’m alive, my heart keeps beating like a hammer”, grita Emily Haines. E a idéia da banda é fazer o público acompanhá-la: “Fantasies” é o típico álbum power pop que você ouve numa quarta de manhã e dá vontade de viver. Destaques: “Help I’m Alive”, “Sick Muse”, “Front Row”.

5. Yeah Yeah Yeahs – It’s Blitz
É difícil usar a palavra “consistente” para uma banda tão etérea, mas Karen O e seus comparsas conseguiram. Destaques: “Zero”, “Soft Shock”, “Skeletons”.

4. Wilco – The Album
Enquanto a mídia ainda caía de joelhos por “Sky Blue Sky”, Wilco lança o que, a julgar pelo conceito do próprio trabalho, parece ser O álbum definitivo. “The Album” simplesmente surpreende. Mas, quando o assunto são esses garotos de Chicago, nunca se sabeo que pode vir ainda. Destaques: “Wilco The Song”, “One Wing”, “Solitaire”.

3. Morrissey – Years of Refusal
Lamentos em forma de melodias extremamente poderosas marcam o quase já antigo novo álbum de Morrissey. Destaques: “Something is Squeezing My Skull”, “Black Cloud”, “I'm Throwing My Arms Around Paris”.

2. Sonic Youth – The Eternal
Os genes do grunge pululam vivos e repaginados, transbordando o Raw Power do punk 77. Não é exagero: Sonic Youth prova que tem fôlego pra mais de milhão. Destaques: “Sacred Trickster”, “Anti-Orgasm”, “What We Know”.
1. Kasabian – The West Rides Pauper Lunatic Asylum
Se você não ouve música sem melodia (legado dos anos 60), não abre mão de bons riffs de guitarra (anos 70), acha que programadores podem ser usados em benefício à música (anos 80) e descobriu que é possível incluir o eletrônico no rock sem dó (anos 00), então seu mais novo álbum é esse. Destaques: “Underdog”, “Fast Fuse”, “ladies and Gentlemen”.

Tuesday, May 19, 2009

Heaven & Hell em SP: Tony Iommi é um trator engrenado


Credencial Tosca orgulhosamente apresenta resenha de Marcelo “Pirajuí” Daniel, vulgo Pira, sobre show fodástico do último findes. Enjoy lml

Chuva, frio, estacionamento caro, breja a preço de zonas do baixo meretrício e fila. Foram essas algumas palavras que antecederam a primeira noite de shows do Heaven & Hell em terras paulistanas, em 15/5. Já faz uns dias que o clássico Black Sabbath passou a atender por esse nome - segundo a banda, para incorporar a verdadeira essência dos chamados "Dio Years". Sei não, para mim deve ter uns cheques borrachudos envolvidos nessa história, mas enfim.

A parte ruim da noite dissipou-se com o apagar das luzes no Credicard Hall, sob o suspense de "E5150", uma macabra introdução de teclados e barulhos sombrios, uma receita que o Sabbath sempre usou: uma música instrumental curtíssima e uma porrada logo em seguida. E assim foi, com "Mob Rules" que abriu o show e acabou com qualquer chance de ficar com os cabelos penteados na pista.

Ronnie James Dio é o legítimo gentleman da cena há decadas, uma espécie de Dave Grohl do metal. Todos o amam, fez sucesso em todas as bandas que passou e tem destaque semelhante com o seu projeto solo. Se por um lado sua capacidade de interagir com o público sequer se aproxima da de Ozzy Osbourne, sua voz tem a mesma potência do início da carreira e as músicas são executadas com muito rigor, com pouco espaço para participação da galera.

O repertório trouxe clássicos dos álbuns Heaven & Hell (1980), Mob Rules (1981), Dehumanizer (1992), além dos sons novos do disco The Devil You Know (2009), cuja capa louca lembra um jogo do XBox 360.

O baterista Vinny Appice é velho conhecido do grupo e já passou por uma pancada de bandas, como o próprio Dio e até John Lennon. A maioria das músicas do show foram gravadas com Appice na formação e ele quebrou tudo, com direito a solo que divide a apresentação.

As músicas do novo álbum agradaram e não fogem do modelo que funciona há 40 anos, com riffs certeiros, vocal avassalador e solos que brilham no peso e não na virtuose. O público respondeu muito bem às três canções estreantes: “Bible Black”, “Fear” e “Follow the Tears” – vale lembrar que o álbum ainda não foi lançado oficialmente em solo brasileño.

Por mais talentosos e repletos de bagagem que sejam o vocalista e batera, não há como negar que os destaques da noite eram mesmo o baixista Geezer Butler e Tony Iommi, fundadores do Black Sabbath em 1968. Se você comemora o fato de ter aturado seu baixista por três meses, esses dois tocam juntos há quatro décadas!!!

Geezer é bastante introspectivo e olhou para o próprio baixo o show inteiro, limitando seus movimentos em pequenos passos para frente. Sua timidez também foi notada pelos câmeras do Credicard Hall que poucas vezes o colocaram no telão, o que amplificou ainda mais a discrição.

Tony Iommi é um trator engrenado, pronto para atravessar terrenos íngremes. Impecável, com um jaquetão de couro, óculos de tiozinho e os inseparáveis crucifixos, balança a cabeça em cada introdução ou solo, orgulhoso de tudo que dali produz. Usou três guitarras Gibson SG, modelo que ajudou a popularizar, para marcar para sempre os tímpanos do público presente com os riffs que ele inventou em sua imunda garagem em Birmingham, Reino Unido – e que, de brinde, viriam a criar um estilo musical chamado heavy metal.
O entrosamento do baixo e guitarra proporcionaram momentos inesquecíveis em músicas como “Neon Nights”, “Die Young” e a destruidora de lares “I”.

“Heaven & Hell” foi a penúltima da noite e funcionou como retribuição aos músicos pelos bons préstimos durante a pancadaria. O coro tomou conta do ambiente e arrancou sorrisos de gratidão no palco, até que Dio resolveu abrir a boca e já não era possível sequer ouvir o som da galera.

A nostalgia também veio à tona com as improvisações, que fizeram a música durar 15 minutos. As jams do Sabbath são famosas e exibem um equilíbrio até irritante entre os músicos, que ficam distribuídos homogeneamente no palco, decorado com dois portões macabros e luzes de filme de terror.

Pouco mais de uma hora e meia depois, as luzes se acendiam e a impressão que ficava ao redor era a de que ainda estava todo mundo no quarto, com 15 anos e o fone de ouvido no último, com aquela sensação de “rapaz, esses nego são foda”!

Por Marcelo “Pirajuí” Daniel

Thursday, May 14, 2009

O show que (não) se ouviu


A essa altura, informado leitor, você já deve saber que a passagem do Oasis por São Paulo rendeu menos bilheteria que o esperado; que a organização, comparada a outros eventos, estava ok; que a chuva se fez presente novamente, repetindo o termômetro da passagem anterior da banda na capital, em 2006; e que a voz de Liam Gallagher não é mais a mesma. Mas o que você deve também já saber, caro leitor, é que grande parte da imprensa paulistana babou de qualquer forma na apresentação. Por um único e simples motivo: essa pulseirinha que temos aí na foto.


O jornalista que não se dignou a colocar seu nariz encapuzado pra fora da chamada “área VIP” viu um show. Nesse show, Liam desafinava, a bateria se mostrava mais alta que o restante dos instrumentos e da voz, mas nada que realmente fizesse da noite um desastre. Na chamada pista, o espaço democrático e varzeano do evento, o público mal conseguiu distinguir o que era a voz esganiçada do irmão Gallagher mais emburrado do restante dos barulhos. Sim, barulhos. Faça o teste: abra um vídeo no YouTube da apresentação e mostre a pessoas que ficaram na várzea. Esse, definitivamente, não foi o show que elas ouviram.


A confusão sonora começou no show de abertura. A Cachorro Grande, empolgadíssima, tentava levantar a platéia em meio a chuva quando o som da banda simplesmente desapareceu. O público começou a fazer gesto de negativo e a vaiar. Como já havia sido bem-recebido nas canções anteriores, Beto Bruno desconfiou. Saiu do palco para reclamar, voltou e perguntou: “vocês estão ouvindo?”. Recebeu um “não”mais sonoro que tudo o que pudesse ser ouvido no Anhembi.


O show do Oasis teve início com uma falha grotesca no telão direito e, após a introdutória “Fuckin in the Bushes”, uma fraca voz se ouvia em “Rock and Roll Star”. O público emocionado fez a vez do coro. Conforme percorria o set list, Liam perdia a força e nem ousava alcançar suas indefectíveis notas agudas. A irritação do vocalista crescia na mesma proporção. Apenas quando deu folga às cordas vocais na pausa de músicas cantadas pelo irmão Liam conseguiu chegar a algo próximo das músicas originais.


O destaque ficou por conta do novato batera do Oasis. Diretamente de Liverpool, Chris Sharrock comandou não só as baquetas como um verdadeiro show de malabarismo, com pulso firme mesmo quando os irmãos Gallagher pareciam sem ânimo para iniciar ou finalizar canções.


Entretanto, eu só sei de tudo isso porque, mais do que ver, ouvi o show. Mas não precisei fazer um esforço jornalístico descomunal pra descobrir que muita gente foi embora com gosto de “cadê”. Bastou perguntar.

Tuesday, May 05, 2009

Eu quero!


Enquanto a Ludwig do Ringo não fica pronta, espiem as réplicas rock-bandestas da Rickenbacker 325 do John Lennon e da Duo Jet do Harrison. Não sei se o videogame vai dominar o mundo da música, mas corto meu dedo mindinho se algum fã do Fab Four passar ileso a essa onda Rock Band Beatles.